Crônica “Os mortos de fome” – 24.09.2013

ilustra_Donald[24.09.2013]

Ilustração para crônica de Donald Malschitzky

“…“O que os olhos não veem, o coração não sente” ficou incompleto, pois os olhos, de tanto verem, extirparam o sentimento do coração. Contra qualquer tese filosófica, tornamo-nos brutos pela ação do conhecimento; quanto mais sabemos, menos nos sensibilizamos com a tristeza, menos abominamos a violência, menos nos  mobilizamos contra a desgraça….”

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publicado no jornal Notícias do Dia 24.09.2013

Crônica “Você chegou” – 20.09.2013

Ilustração para crônica de Léo Saballa

Ilustração para crônica de Léo Saballa

“…Você entrou na minha vida sem pedir licença. Chegou assim, do nada, como a força do vento que infla e direciona a vela do barco.Tateou os compartimentos escuros de um coração solitário e, sem fazer perguntas, varreu a dor provocada por velhas e sofridas lembranças.Convicta, domesticou a intimidade arisca, arrancou grades, quebrou janelas e portas trancadas pela ferrugem da ingratidão.Aliviou dores e mágoas acumuladas nos dias e noites iguais, de um tempo que parou.Regou sentimentos divididos, desidratados em histórias mal vividas e pensamentos desérticos.Cicatrizou feridas adormecidas pelo tempo congelado.  Ao mesmo tempo, estancou lágrimas ácidas, secas e sorrateiras.Você chegou como aragem numa tarde de verão. Você chegou e botou sol no céu e lua na noite.Nada trouxe nas mãos. Nada falou ou perguntou. Também não perguntei e nem precisou.Você chegou e soube chegar. Como a força do vento que infla e direciona a vela do barco.”

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publicado no jornal Notícias do Dia 20.09.2013

Crônica “Minha prima vem aí!” – 19.09.2013

Ilustração para crônica de Roberto Szabunia

Ilustração para crônica de Roberto Szabunia

” O final de semana que se aproxima traz uma grande expectativa, pois aguardo a chegada de uma prima muito querida. Ela tem desembarque previsto para domingo, e a condução que a traz não costuma se atrasar. Sei que exatamente às 14h44 deverei estar no portão, esperando para ajudá-la com as malas….Essa prima tem como principal característica a alegria. Nunca está de mau humor, não importam as circunstâncias. Mesmo que despenque uma tempestade, ela não larga suas flores e mantém o sorriso, invariavelmente vestindo roupas de estampas coloridíssimas – flores, frutas, paisagens, pássaros, cenários marinhos… Claro que tal comportamento acaba por contagiar as pessoas em volta. Onde minha prima está não há lugar para a tristeza – como diz a música de Fernando e Sorocaba, “…a tristeza pula de alegria”…Seja bem-vinda, prima Vera.”

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publicado no jornal Notícias do Dia 19.09.2013

Crônica “Vinho tinto” – 16.09.2013

ilustra_Donald[17.09.2013]

Ilustração para crônica de Donald Malschitzky

“…As águas do Mapocho, que corta a Capital, de tanto levarem os lamentos de um povo, e os levavam de roldão em dia de chuva forte, quando o rio se encorpava em minutos, um dia viraram cristalinas, dedicando-se,  apenas, a lavar  as cicatrizes que ainda há; que sempre haverá, porque certas memórias não têm o direito de morrer.Hoje há paz, democracia e progresso no Chile, e, se queremos um país latino-americano para nos espelharmos, está logo ali, à nossa disposição. E 11 de setembro acontece a cada ano e tristes lembranças continuam como um quadro pendurado no melhor espaço da sala, a lembrar que apenas enquanto tinto for apenas o vinho estamos autorizados a brindar.”

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publicado no jornal Notícias do Dia 16.09.2013

Crônica “Revistas para moças” – 17.04.2013

Ilustração para crônica de Hilton Görresen

Ilustração para crônica de Hilton Görresen

“Quando garoto, eu tinha – como, aliás, muita gente – uma tia dita solteirona. Naquela época, quando uma moça chegava aos 30 anos, pai Cronos, o senhor do Tempo, alçava em sua frente uma tabuleta: ó vós, que aqui chegastes, deixai de fora toda esperança. As pobres moças não tinham alternativa, a não ser continuarem sendo tias até o fim da vida.Essas eram as principais leitoras das revistas para moças: Grande Hotel, Capricho, Ilusão, Noturno e outras. Como minha tia costumava comprá-las ou mesmo tomá-las emprestadas das amigas, eu acabava lendo algumas delas. Eram histórias românticas em forma de fotonovelas, produzidas na Itália. Lembro-me até do nome de alguns artistas que mais protagonizavam as histórias: a morena Liza Negri, Luisella Boni, Michella Roc, Alberto Farnese. Muitos ídolos do cinema italiano passaram pelas fotonovelas: Sofia Loren, Gina Lollobrigida, Claudia Cardinale, Vitorio Gassman e até o famoso Trinity – Terence Hill – com seu nome de batismo, Mário Girotti (na realidade, não cheguei a ler histórias protagonizadas por nenhum deles, encontrei essa informação num site)….”

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publicado no jornal Notícias do Dia 17.04.2013